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Da pequena cidade de Cachoeira/Ba

Oi meu amigo,

mais uma vez falhei com minha promessa de virmos nos falar com mais frequência. A verdade é que, desde o nosso último encontro para cá, inconstáveis coisas aconteceram. Coisas as quais te contarei depois e que fizeram de mim muito mias forte do que aquela menina insegura e constantemente assustada.
Não é que a vida adulta não me cause alguns sustos, mas tenho conseguido me manter mais tranquila, apreciando as mudanças até.
Você me conhece e sabe que sempre tive um apreço pelo novo, porém eu curia mudar dentro do meu ambiente controlado: um estilo novo de me vestir, uma comida nova, uma língua e viver algum tempo em outro país etc. Tudo novo, mas controlado e reversível.
No entanto, isso não é suficiente quando se torna adulto. É preciso tomar coragem para decisões que mexem em pedras que, uma vez deslocadas, alteram todo o caminho.
Então, aprender a me estimular a partir disso tem sido essencial para que me mantenha em paz e serena.
 Ontem mesmo foi um dia incrível e adverso. Acordei com uma vontade de ficar de pijama assistindo o Royal Wedding. Porém, tinha o compromisso de ir à Cachoeira com Rogério para prestigiar o evento da sobrinha dele, Camila Camila, com Letícia. Elas criaram um projeto incrível chamado Mulheres Ativismo Realização - MAR. O plano era basicamente esse, mas acabamos passando a noite em Cachoeira, no Convento do Carmo!
Cachoeira é um pedaço de terra premiado no recôncavo baiano. O diferente é cultuado como um complemento. As pessoas são livres, as crenças, as ideais e os amores também. Há sincretismo em sua pura essência. O candomblé e o catolicismo vivem em comunhão. As pessoa são apenas seres humanos sendo.
Como é florida a Praça 25 de Março! É uma grande mistura.
Enquanto passávamos um tempo nela, entretidos em um bate-papo despretensioso, eu percebia todos esses movimentos.
Percebia como um querido recém conhecido dançava de forma robótica com sua amiga polonesa ao som do arrocha.  Analisava como algumas, ao contrário de mim, amavam cada pêlo de seu corpo. Percebi, portanto, como as personalidades ali eram manifestadas de maneiras muito singulares e achava isso a coisa mais inda de se ver. As minorias sociais ocupavam cada metro quadrado  da praça e todos os espaços, transformando a pequena cidade de Cachoeira em uma grande festa.
Tudo isso contrastou drasticamente com a chegada de um grupo de homens de terno e gravata, dois deles acompanhados de seus esposas. Um grupo pequeno, estereótipo opressor, sério e sisudo. Uma única cor, todos de preto.  Nada mais. Todos eles seguindo o padrão. Nada de novo. Suas esposas eram meras coadjuvantes, tão diversas das mulheres do MAR. Uma pena!

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