Olá (ainda preciso te dar um nome),
Esta é mais uma tentativa de levar a cabo esse hábito de
escrever as coisas que estão na minha mente. Já comecei inúmeras vezes e, uma
conclusão ruim que cheguei, foi que a maioria delas eram justamente em períodos
de grande angústia ou tristeza. Mas agora, felizmente, todos eles passados e
devidamente superados, venha cá, mais uma vez, abrir um pouco da minha cabecinha
com o turbilhão de pensamentos que só ela tem para você, meu melhor e único
leitor.
E é com imensa alegria que começo isso novamente. Em
especial porque há 5 minutos atrás tive uma daquelas epifanias da vida.
Explico.
Tudo começa na minha ida à Lisboa em fevereiro deste ano.
Sim, está distante, voltei muito no tempo, mas isso é necessário. Não estou
sendo prolixa desnecessariamente. Acredite.
Enfim. Fui para Lisboa e lá cheguei já me preparando para a volta.
Não porque quis sofrer por antecipação, mas para preparar minha mente e espírito
para esse regresso enfadonho à vida a qual eu quis fugir. Nem todo mundo
entende, na verdade, diria que quem não sente essa vibração jamais vai
compreender alguém que sente. Porém, todo intercambista sabe exatamente do que
estou falando: o quanto as vezes é complicado ir, mas tem certeza de quanto é
ruim voltar.
Outro dia ainda te escreverei sobre o sentimento de
intercâmbio. Mas meu caro amigo, como você é meu alterego, sei que compreende
lá no fundo o que digo.
Bom, voltando. Fui me preparando para voltar. E, sim, obtive
êxito na missão. Até que foi menos sofrível do que imaginei. Achava que
choraria rios e mais rios, mas nem. Chorei, claro, mas aceitei que tinha de
voltar, que não dava pra ser pra sempre e até me acostumei rápido à minha nova
velha vida.
Esse êxito eu atribuo a algumas coisas. No maior dos clichês,
mas sendo uma completa verdade, a Deus que alimentou meu espírito e me fez mais
forte. Depois, aos ensinamentos do budismo que de uma forma clara e mansa
conseguem me fazer decifrar e organizar meus pensamentos e sentimentos, muitas
vezes excessivamente melodramáticos. E, por fim, à minha epifania anterior que
me fez perceber que a volta do Canadá foi daquele modo tão dolorosa porque não
estava, devida e literalmente, cercada das pessoas que mais amo por perto.
Estou falando do significado de lar mesmo. Esse que só
compreendi quando estava muito longe dele e quase que sozinha. Foi assim longe
que percebi o quanto dou valor a esses quatro indivíduos.
Pois bem. Com tudo isso em mente, fui, curti e regressei. Só
que, dessa vez, voltar tinha um peso maior. Não ia ser voltar apenas para um
semestre convencional, mas, sim, para o último da FDUFBA com tudo aquilo que
ele implica, ou seja, cursar as matérias restantes; monografar, monografar e
mais monografar, e OAB.
E aqui estou nessa rotina, entretanto, sem nenhuma angustia
como bônus e desnecessária em minha cabeça. Agora mesmo estou com o prazo
apertado da monografia e acabei de fazer minha inscrição na OAB, coisas que,
por si só, me deixam com o frio na barriga. Porém, nada grave, nada fora do
normal e do esperado.
E sabe quando foi que tive a epifania mágica que me fez vir
aqui falar com você? Fazendo a bendita inscrição da OAB.
Lá fui eu preencher aquelas fichas de inscrição que te pedem
todos os seus dados. Fui colocar meu endereço e, por ser novo, não sei de cor.
Daí, tive de consultar o site dos Correios e verificar CEP e Bairro. E foi
nesse momento que tudo se clareou.
Atualmente, moro em Feira de Santana, no bairro da Pedra do
descanso. Exato! Pedra do descanso. Onde eu descanso. Aliás, onde eu e você
descansamos.
Achei muita coincidência para passar despercebida. Não acha?
Ainda hoje conversava com meus pais e eu, como sempre rindo
de tudo e de nada ao mesmo tempo, disse a eles que estavam sendo em grande
parte responsáveis pela minha sanidade mental nos últimos meses. Se estivesse
longe daqui, com certeza, não passava bem agora.
Gosto daqui. Finalmente gosto de sentir que minhas raízes são
daqui. Inclusive, ao ponto de analisar melhor a possibilidade de ir morar fora.
Nunca achei essa cidade meu sonho de moradia. Não tem muito
o que fazer, lazer quase zero, lazer cultural quase negativo.
Feira é uma cidade altamente comercial. Surgiu de rotas
comerciais antigas aqui na Bahia. Consigo imaginar os cacheiros viajantes indo
e voltando de todos os locais. Passando por aqui para fazer uma prece à Nossa
Senhora Sant’Anna e para descansar. Onde? Na pedra. A pedra do descanso.
Não sei se foi bem assim que as coisas se sucederam, mas,
para mim, essa história é bastante verossímil e se adequa bastante a mim neste
momento.
Pois bem. Era só isso que tinha para te dizer. Espero voltar
e não demorar muito para isso.
Até mais.
Andressa
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